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[19/1/2007 12:47:29]
Mercosul: Lula prega integração total e mais atenção aos países pobres 


Mercosul: Lula prega integração total e mais atenção aos países pobres

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quinta-feira (18) que Brasil e Argentina são os países que precisam ter mais responsabilidade dentro do bloco Mercosul. Segundo ele, os dois têm responsabilidades maiores por serem os mais importantes da região.

"Esse é o desafio que está colocado para nós. É um desafio gigantesco, que vai precisar de despojamento de interesses pessoais e até mesmo do interesse nacional para repartir com alguém que precisa mais do que nós", afirmou ele.

"Não resolvemos todos os problemas de assimetrias entre os países. Temos problemas de desigualdades muito fortes na economia de cada país. E a minha tese é que os países mais fortes têm que ser sempre mais generosos e ter políticas para ajudar os mais pobres", reiterou.

O presidente disse que, desta forma, a União Européia conseguiu ajudar no desenvolvimento da Espanha, Portugal e Grécia e tem ajudado novos países-membros.

"A integração tem que ser total, tem que ser política, cultural, social, econômica e comercial, porque se os empresários sabem fazer seus trabalhos, os governantes é que precisam evoluir para compreender que muitas vezes nós temos que atender aos interesses de um outro país ao invés de querermos apenas que nossos interesses sejam atendidos."

Lula afirmou que o alcance desse despojamento depende exclusivamente dos sócios do Mercosul, e não dos interesses da Europa e do Japão ou de qualquer outro bloco.

Amorim: Remédio para tensões não é menos Mercosul, é mais Mercosul

Por ocasião do encontro de cúpula do Mercosul, que ocorre nesta quinta-feira, o “Bom Dia, Brasil”, da TV Globo, entrevistou o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. Amorim rebateu críticas e dúvidas sobre as tensões que envolvem o bloco. Para ele, ao contrário do que afirma o senso comum, a solução para conflitos não está no isolamento e abandono do bloco, mas no engajamento pleno. “O remédio para esses problemas não é menos Mercosul, mas mais Mercosul”, declarou no telejornal matutino.

A comentarista Miriam Leitão ressaltou a implementação de um “plano B” pelos EUA, após o fracasso da Alca (Área de Livre Comércio das Américas). Os acordos bilaterais dos EUA com alguns países enfraqueceria o Mercosul e colocariam as intenções do Brasil como Mercosul em cheque. Miriam chegou a mencionar o crescimento de 500% no comércio do Brasil com o Mercosul e de 400% com os EUA como um fator negativo. Segundo ela, o comércio com a Venezuela é da ordem de US$ 4 bi, enquanto com os EUA é de US$ 40 bi, o que não justificaria esta priorização dos países mais pobres.

Amorim ressaltou o aspecto positivo destes números, que representam aumento exponencial de comércio com o mundo todo, e não redução. Também rebateu a lógica de isolamento com o argumento da prioridade política que o Brasil tem com seus vizinhos. “Se nos não entendermos e virmos o Mercosul sob o ângulo da integração política, nós não vamos entender nada”, sugeriu.

Sobre o início dramático do governo Hugo Chávez, Amorim disse que não se faz política com medo, mas com realismo. “Sem falar que, confiando nas nossas instituições, é mais fácil o Brasil influenciar a Venezuela do que vice-versa”, ressaltou. Ele também criticou o “dramatismo” estimulado por setores da mídia e dos formadores de opinião sobre os conflitos comerciais. Para ele, estes conflitos são normais e não precisam ser superestimados.

Leia a íntegra da entrevista:

Está sendo ventilada a entrada da Bolívia no Mercosul, com tratamento diferenciado. Isto não pode acirrar ainda mais as tensões já existentes com Argentina, Uruguai e Paraguai?

O tratamento diferenciado já existe dentro do Mercosul para o Paraguai e o Uruguai. Gostaria de aprofundar muitos aspectos da análise da Miriam Leitão. A Bolívia entrando, obviamente, terá um tratamento diferenciado. Gostaria de dizer que o Mercosul não é um projeto só economicista. Nós temos interesse geopolítico na estabilidade da América do Sul. O Brasil tem que ter relações fortes com seus dez vizinhos na América do Sul. Por isso, o Brasil não trata a questão apenas do ângulo comercial, -embora tenha sido muito bem sucedido desse ponto de vista-, mas também sob um ângulo político. Se nós não entendermos e virmos o Mercosul sob esse ângulo, nós não vamos entender nada. É um pouco a questão da União Européia. O Reino Unido, à época da criação do Mercado Comum Europeu, tinha um comércio mais intenso com os EUA e as ex-colônias, do que com a União Européia. Mas o interesse político de reforçar a relação com os outros paises europeus, até em função da história, era fortíssimo. E teve que fazer uma opção. Claro que os casos não são idênticos, mas eu estou querendo mostrar, que essas não são decisões de natureza puramente comercial, embora, como a própria Miriam Leitão disse, também desse ponto de vista nosso comércio com o Mercosul e a América do Sul se multiplicou exponencialmente, mais ainda nos últimos quatro anos. Este comércio é composto 90% por manufaturas, sem falar nos investimentos de empresas como Gerdau, Ambev, Petrobras. As empresas brasileiras estão se multinacionalizando e o primeiro passo dessa multinacionalização é a América do Sul.



Está todo mundo com medo do “fator Hugo Chávez”. Isso ressaltou o fator político dentro do bloco. Este voluntarismo político de Hugo Chávez dentro do bloco não prejudica o Brasil?

Não se faz política com medo, mas com visão, sentido de realismo, naturalmente, com noção do que é possível obter. Não vou fazer juízo de valor sobre todos os aspectos do governo Hugo Chávez, porque não sou venezuelano. Agora, qualquer que seja o ponto de vista, o engajamento é sempre melhor do que o isolamento. Nós temos exemplos de políticas de isolamento aplicadas aqui no continente, que deram totalmente errado. Nós temos, ao contrário, o interesse de nos aproximarmos cada vez mais. A Miriam salientou que o comércio com a Venezuela é de US$ 4 bi, mas não assinalou que, desses US$ 4 bi, US$ 3,5 bi são de exportações brasileiras. É um mercado fortíssimo, e muito importante para as empresas brasileiras. Sem falar que, confiando nas instituições do Brasil, é mais fácil o Brasil influenciar a Venezuela do que vice-versa.



O Uruguai e a Argentina estão brigando por causa das indústrias de papel e foram buscar a mediação fora do bloco. Na semana passada, a Argentina foi à OMC por uma queixa contra o Brasil, que poderia ser discutida aqui, numa reunião entre os dois países, que têm uma relação tão intensa. Que bloco é esse que, todo mundo quando briga procura mediação externa, procura fóruns internacionais, e não tem mecanismos de arbitragem para mediar conflitos dentro do bloco?

Mecanismos existem, mas são incompletos. Aliás, o primeiro país a recorrer à OMC contra uma ação praticada por outro foi o Brasil no governo FHC. Eu era o embaixador em Genebra e comecei a executar essas ações. Eu concordo com você. Há limitações. Nós não temos, como existe na Europa, uma política de concorrência. O remédio para esses problemas, como eu freqüentemente tenho dito, não é menos Mercosul, mas mais Mercosul. Eu concordo plenamente com a limitação, agora também não tem que dramatizar isso. O Canadá está entrando com uma ação contra os EUA sobre o milho, e os dois são membros do Nafta. Vamos deixar de ver essas coisas dramaticamente. Conflitos comerciais são normais. Nós não temos política de concorrência. Deveríamos ter. Precisamos fazer disso uma prioridade, aliás. Mas, enquanto não temos, temos que recorrer à OMC que é o órgão que existe. Isso é normal, o Brasil já fez, a Argentina está fazendo. O ideal é que não ocorresse, mas não tem que ter nenhum drama nisso não.



O presidente Hugo Chávez está propondo que se faça um Banco do Sul, para que os países não tenham que “mendigar” empréstimos nos organismos multilaterais. Ele diz estar disposto a colocar 10% das reservas da Venezuela nesse banco. O Brasil também está disposto a colocar 10% das suas reservas no Banco do Sul?

Há várias propostas. Houve uma comissão de reflexão sobre a comunidade sul-americana. Há várias idéias. Já existe a Corporação Andina de Fomento, que é um instrumento adequado. Outras hipóteses podem ser encaradas. Mas, no momento, o Brasil estão está contemplando essa ação. Se ela vir, ou não, a ser tomada no futuro, - uma parte das reservas ser dedicada a projetos na América do Sul -, esta decisão, evidentemente, não é uma decisão só da diplomacia, é uma decisão que tem que levar em conta fatores econômicos e de outra natureza. O fato é que estamos trabalhando intensamente para a criação de mecanismos financeiros, através da Corporação Andina de Fomento. O BNDES está em fase adiantadíssima para chegar a um acordo para, inclusive, aumentar o capital do Brasil na Corporação Andina, que tem feito financiamento de várias empresas brasileiras no Peru, e outros países, inclusive. Mas, além disso, tem o Forcem, dentro do Mercosul, que é o primeiro mecanismo para compensar essas assimetrias e diminuir um pouco essas queixas, a que você tem se referido, e que são justos, muitas vezes, porque houve muitos anos de abandono de países como Paraguai e Uruguai.


Fonte: PT Nacional



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